quarta-feira, 6 de julho de 2011

Do Tempo


Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

(Cecília Meireles)


Esse poema de Cecília Meireles fala de forma singular sobre as mudanças ocorridas com o homem, sejam mudanças físicas, sejam mudanças psicológicas. O texto já começa com a afirmação em seus primeiros versos: "Eu não tinha este rosto de hoje/assim calmo". Há supostamente uma passagem de tempo que não é reconhecida pelo eu-lírico, mas que marca profundamente o seu estado de epifania ao descobrir a verdade acentuadas pelas expressões triste, magro, olhos vazios e lábio amargo.
As mãos sem forças são imcapazes de produzir o bem, não só a si, mas ao próximo também. Além de tornarem as relações frias na certeza de sua morte devido ao tempo em reclusão introspecta. Entretanto em algum lugar do passado ficou a vida que não se tem e não se sabe se de fato é o dono.

Em que espelho temos perdido a nossa face e não damos por essa(s) mudança(s)? Acabamos nos acostumando ou não notamos o processo que sofremos paulatinamente?
Nossos amigos, parentes e amantes são os que mais sofrem com estas mudanças que no permitimos sem permitir. E quando nós notamos que houve uma evolução será que ainda há tempo pra mudar, regredir?
Salomão em suas sábias palavras diz que há tempo para tudo na terra, então há o tempo da mudança. Contudo nem todas nos agrada. O tempo todo tudo muda no mundo, o clima, a língua, a moda e as pessoas. Vezes gostamos, vezes não.
Acho incrível como as relações interpessoais tem sofrido grandes mudanças nestes dias tão nebulosos. Como Bergman já propunha em seus filmes Sonata de Outono e Luz de Inverno, até mesmo as relações familiares tem sido esfacelada e esmagada por nossa solidão e por nossos medos. Ou em alguns casos mais graves por ambições que colocam o desejo e autosatisfação em primeiro plano. Não tempos visto como nossas fragilidades nos envelhece os ossos, não sentimos amor pelo próximo como fora anteriormente. E o pior, não sabe-se admitir o erro.
A modernidade tem sim sua grande parcela de culpa, sempre jogando informação de forma demasiada e por muitas das vezes ocas e nada mais. O conforto, a comodidade atrai ao homem. Em outros casos, é preciso batalhar para por a casa em ordem, não deixar nada faltar em casa, e não sobra tempo para se relacionar com a família.
É preciso dar um tempo para nós mesmos, é preciso reavivar a chama da amizade que ainda arde em nós. É preciso saber respeitar as opiniões, saber ouvir, amar, cantar.
Cuidar de quem amamos faz um bem enorme a nossa alma. Principalemente olhar nos olhos de nossos amigosparentesamantes e dizer de peito aberto e sem vergonha de ser feliz: Eu te amo.







Some Like It Hot

Confesso que nunca mais tinha tido boas crises de risos com um filme, as comédias perderam sua essência, sobretudo as ditas comédias americanas estudantis, que como sempre, vem carregada de piadas e seus clichês pejorativos. Porém hoje me deparei com uma comédia nova, lançada em 1959. Você pode até estranhar o fato de eu a chamar de nova, isso se dar por ser um clássico, clássico nunca envelhece, nunca morre.
Some Like It Hot, é estrelado pela graciosa Marilin Monroe a eterna diva da sensualidade e da beleza, até os dias de hoje copiada e reverenciada, e pelos talentosos Tony Curtis e Jack Lemmon, e tem a direção certa de Billy Wilder que conquistou nada menos que oito prêmios Oscar por suas obras.
O fato é que este filme é um marco na história do cinema por trazer em seu roteiro temas tabus e que hoje são imitadissimos por muitos diretores (vide As Branquelas), contudo não chegam as graças da trama endriabada de Quanto Mais Quente Melhor (título brasileiro).
Imperdível para qualquer cinéfilo ou para pessoas que curtam bons filmes e comédias de farsa maluca.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Do Amor


Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Esse poema de Drummond permance vivo em nossas mentes até o dia de hoje, ou não seria um clássico. Mas ao pensarmos no ato de amar, como defini-lo?
AMAR, verbo transitivo direto, que não precisa de um apoio para que o objeto seja alcançado.
Em dias atuais a humanidade vem se perdendo no caminho e cada vez mais desconhece o que é o amor. Não se pode afirmar o que realmente acontece com as pessoas que cada vez mostram-se vazias e fúteis. Nossas máscaras são sempre postas e estamos diante de um perpétuo baile de máscaras com nossa dança desenfreada e desajustada. Não se toca não se sente não vê.
As salas de bate papos vivem lotadas de pessoas em busca de sua “cara metade”, as relações virtuais ganham mais espaço que a vida real. A fantasia, a busca pelo sexo fácil, rápido e gratuito tem sido o grande joguete do momento. Nisso se vê a falta de amor próprio ou seria o medo de encarar o outro face a face? Ou seria um mecanismo para acabar de vez com a solidão?
A TV, o rádio e o cinema vendem um amor fácil, rápido. Nossos ídolos nos embriagam com seus amores e casamentos pomposos, mesmo que estes durem apenas dias. As meninas, sobretudo, têm suas fantasias alimentadas às asas da imaginação com casamentos gloriosos à La Kate ou romances frívolos de reality show ou esperam viver uma saga crepuscular. Os meninos esperam uma transa e nada mais ( quiçá que a camisinha não estoure).
Ao que se entende por família a situação tende a ser pior, cada vez mais vem se deteriorando, enfraquecendo com vícios das drogas como álcool e craque, com a falta de afeto e outras coisas. O número de divórcios tem crescido nos últimos anos, segundo dados do IBGE. Outras vezes somos surpreendidos com homicídios ocorridos dentro da própria família ou os ditos crimes passionais. É nesse estado desgastante que temos visto a família atual.
Contudo ainda creio que existe uma chance para o amor, creio que a esperança não morreu e com um pouco de sorte veremos o homem mudar, não sei quando nem como. Acho que isso é fé.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O Réu Tornou.

Depois de anos luz longe deste blog, resolvi voltar a escrever (ainda que por inveja de minha amiga Mestra Daiane) e dar continuidade a este ato que é tão significativo na vida do ser humano, pois desde os primórdio o homem vem manifestando sua posição ideológica através da escrita.
Escrever faz bem a alma, e ler é muito melhor. Esta segunda é chave da saída da caverna de Platão, embora muitos dos jovens levantem-se munidos da chave e tranque a porta para não sair. A escuridão faz bem a eles.

Aqui falaremos sobre arte, cultura , educação, política de forma crítica analítica e sintética.

A Casa de Farinha está aberta.

Sejam bem vindos.

Como diz o poeta: A casa é sua.